Em 1943, em sua humilde casinha no Alto da Boa Vista, subúrbio de Carira, faleceu quase centenário o beato Antônio Rodrigues. Era um caboclo velhinho,
quase anão, cambota, raquítico, imberbe, fala fina e fanhosa, e usava um clássico chapeuzinho de couro. Caminhava miúdo, a estalar os chinelões pela estrada ladeirosa da Boa Vista até a Rua. Nas cerimônias da quaresma, nele se concentravam todas as atenções da redondeza. Realçada a beleza panorâmica das colinas a sede frontarem, festivas, avistavam-se os séquitos do encontro, da Rua à Boa Vista. E aí, a chefiar os penitentes, estava o velhinho, na maior animação religiosa, nos mistérios de sua devoção, embora tal ritual tivesse sido anteriormente condenado pela Igreja.
Como era tradição, que ainda vigora em nossos costumes (embora em seus estertores), pessoas saem à noite (às segundas, quartas e sextas da Quaresma), a fazer devoção pelas almas. formando ternos.
Antônio Rodrigues era chefe de um deles. Diziam os supersticiosos que ele era santo, que quando saía com o terno de penitentes, na Quaresma, o vulto de seu anjo da guarda o acompanhava durante todo o caminho.
Os penitentes apresentavam-se amortalhados em túnicas brancas, cintados por um cordão de São Francisco, com os rostos velados por um capuz que tinha apenas uma pequena abertura para os olhos, salvo o chefe. Este vinha à frente do terno vestido de preto, cruz ao ombro, às vezes iluminada por velas. O terno vagava até tarde da noite. Só depois de percorrer cinco estações, isto é, casas ou cruzes fincadas às margens das estradas, os penitentes voltavam às suas residências, muitas vezes pela madrugada. Eles faziam o oferecimento, que é o canto do Senhor Deus, na última estação, a distinguir-se dos demais cânticos pelo sinal forte da matraca. Não se dando o oferecimento na capela ou no cemitério, faziam-no quase sempre nas cruzes. Antes, muitos dos cânticos eram em latim.
Tal acontecimento era a maior festa quares mal de nossa terra. Na Sexta-Feira Santa, haveria de ser mais rigorosa a penitência. Em vez de cinco, eram sete as estações a percorrer. O pessoal ficava sempre de vigia para, terminada a sexta estação, correr à procura de lugares na capela, a regurgitar de curiosos. Ficavam impacientes até que, em correria, a meninada avisava: “vem aí!”.
Subitamente, o povo se maravilhava com o aparecimento dos penitentes. Às vezes, todos os ternos desfilavam, cada qual com vinte almas ou mais. O matraqueiro, vigilante, ora estava à frente, ora atrás, para impedir que mãos profanas de curiosos descobrissem os rostos dos penitentes. Estes, em alas e a passos lentos, traziam velas acesas. Com a sua cruz marchetada de luzes em constelação, o chefe destacava-se à frente do grupo. Era um espetáculo deslumbrante aquele cortejo à luz de velas, o que lhe dava um movimentado encanto. O tinir de uma sineta à passagem da cruz emprestava, ainda mais, um toque vivo de boniteza ao ritual de acompanhamento do terno.
Tudo isso dava, aos meninos da época, uma impressão de reino encantado, cujas histórias, contadas pela velha Serafina em noites enluaradas, permaneciam bem vivas na imaginação dessas crianças. Nenhum dos ternos jamais se comparará ao do velho Antônio Rodrigues, não só pela maneira como ele se conduzia na prática de suas devoções, como ainda pela pompa com que aparecia naquele dia maior.
Não é apenas esta passagem que nos faz lembrar o ancião da Boa Vista; há outras interessantes. Todos os dias de via-sacra estava ele na capela, com a sua voz arrastada e chorosa, anunciando: “esta é a primeira canção...” e rezando as orações habituais da Paixão de Cristo. Os festejos da Santa Cruz também não sefaziam sem ele. A bem dizer, esta reminiscência vem daquela questão entre os Padres Madeira e Padilha, vigários da Freguesia, e os devotos da Cruz.
Os católicos que formavam a corrente do velho Antônio Rodrigues tinham sua veneração pela Santa Cruz, aquela que conservavam no interior da capela como símbolo representativo da fé da nossa gente, desde que foi plantada sobre a cova da índia Mãe Carira.
Por muitos anos, a Santa Cruz, nos dias a ela consagrados, ficava esplendidamente iluminada a vela e enfeitada de fitas de variadas cores, podendo ser vista até de fora da igreja.
Em Antonio Rodrigues - na originalidade humilde de sua fé e no exemplo que deixou às gerações até seus derradeiros dias - sentíamos uma influência mística impregnada de alma popular, um lenitivo ao clima. Nas secas, por exemplo, com a fonte pública estorricada, nas procissões de promessa a São José, víamos o velho Antônio Rodrigues a mitigar, na crendice do povo, o sofrimento da gente. Mãos postas, joelhos sobre pedras e olhos marejados de lágrimas, ele fitava o céu como se conversasse com Nosso Senhor.