Senhores formandos, padrinhos, madrinhas, patronos, autoridades aqui presentes, demais convidados... Boa noite a todos.
Aos que não me conhecem, meu nome é João Hélio de Almeida, ex-professor-tutor desta Universidade, na qual tive a oportunidade de atuar por três anos, lecionando na segunda turma de Licenciatura Plena em História, deste pólo. Também fui professor substituto da disciplina História do Brasil no Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Sou membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, escritor e colunista dos sites emcarira.com.br e sistemavip.com.
Graças à minha docência na UNIT tive o privilégio de atuar ao lado de grandes profissionais como Acácia, Alex, Marineide e Geane, além da gestora Maria, em nome da qual eu saúdo todos os outros tutores dos demais cursos.
Agradeço este convite aos meus ex-alunos, em especial a Gicélia Rosalina dos Santos e Alexandra Costa Soares, em nome das quais eu cumprimento os demais, ao tempo em que peço desculpas pela ausência nas solenidades anteriores, que justifico pela minha sobrecarga de trabalho.
Inicio meu discurso com a frase que aprendi com o intelectual proscrito Severo D’Acelino, um dos maiores atores, poetas, escritores, ativistas negros, intelectuais e idealistas que o Brasil já conheceu, que ainda hoje paga um alto preço, por ter a ousadia de pensar por conta própria e falar o que pensa. A frase é: “aqueles que não conhecem a História, estão condenados a cometer os mesmos erros do passado”.
O passado está repleto de episódios que nos deram a lição sobre ações que nunca devemos dar continuidade, repetir ou fazer. Esses acontecimentos são conhecidos pela parcela de meus ex-alunos, que ao menos foram responsáveis em seus estudos. São exemplos: escravidão, fundamentalismo religioso, guerras em nome da fé, guerras sem honra, paz feita com covardia, ditaduras, regimes fascistas, absolutismo monárquico, limpeza étnica, corrupção em todas as formas de poder, genocídio etc.
Por exigência do Governo Federal, os professores do Fundamental Maior e do Médio devem ter nível universitário... Esse fato fez com que muitas Instituições de Ensino Superior dinamizassem sua oferta de cursos na área de licenciatura, principalmente com a modalidade de educação à distância.
É óbvia a importância dessa exigência, mas ela guarda, velada, o maquiavelismo governamental de mascarar a perversa realidade educacional brasileira, querendo mostrar para o exterior, os números de uma população com alto nível de escolaridade, mais em indicadores estatísticos do que em critérios qualitativos.
Nosso país convive com um sistema educacional hipócrita, que convida à interdisciplinaridade, com alarde propagandístico, ao tempo que a proíbe quando se tenta pô-la em prática. Cito o caso do professor Eduardo Pina do Departamento de História da UFS, que sendo doutor pela Universidade Carlos V da Espanha, no Brasil não tem seu diploma reconhecido. Ele que é sem dúvida, a maior autoridade em História da Arte em Sergipe, não tem o seu mérito reconhecido por um Estado mentiroso que nega reconhecimento a quem além de ser um historiador da arte, sabe unir essas duas ciências de forma interdisciplinar.
Isso me lembra uma frase de Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra”: “Estado chama-se o mais frio de todos os monstros frios. Mente friamente (...). Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo quanto diz mente, tudo quanto tem roubou-o. Tudo nele é falso; morde com dentes roubados. Até as suas entranhas são falsas.”
Porém, acredito que se o Monstro-Estado está preocupado em mentir sobre paradigmas educacionais e dados estatísticos, então, eu conclamo a trabalharmos primeiramente na defensiva e aproveitarmos a situação para tirar dela – de forma honesta – o melhor proveito possível, com a bagagem de conhecimento disponibilizada.
O Monstro-Estado, de tão enganador, preocupado com seus números, fez com que as pessoas acreditassem cegamente que todo cidadão tem a obrigação de cursar o nível superior, ainda que não precise, não o queira ou não se identifique.
Mas vamos às vantagens. Excetuando as ineficazes mazelas burocráticas desta Instituição, vocês, meus queridos formandos, tiveram a facilidade e a comodidade de fazer curso superior com apenas um encontro presencial por semana, nas manhãs de sábado; o apoio logístico disponibilizado através de plantões tutoriais na tarde do mesmo dia; plantão quinzenal de cada tutor; contato telefônico em horário preestabelecido com os especialistas das disciplinas; material didático apostilado (que mesmo sendo excessivamente experimental, um protótipo melhor dizendo, extremamente resumido, contém preciosas dicas de livros, revistas científicas, home pages etc.); duas avaliações de múltipla escolha com dez questões por disciplina em cada período. Tudo isso foi uma dádiva aos alunos, ou melhor, aos estudantes. Quem passou pela minha tutoria sabe que há um imenso abismo entre o que é ser aluno e o que é ser estudante. Lembrem-se disso. E estou falando de estudantes e não de alunos.
O perfil de quem fez essa modalidade de EAD em Carira constituiu-se na maioria dos casos, de professores em sala de aula, ansiando por atender aos dispostos na Lei Federal; de indivíduos que estavam há anos, ou mesmo décadas afastados da sala de aula de ensino tradicional e que demoraram a se enquadrar ou não se adaptaram à nossa metodologia: ler procurando entender o que está escrito, interpretar textos, sublinhar, resumir, resenhar, seguir normas, metodologias, referências e o contato com estranhas palavras novas, nunca antes lidas sequer ouvidas.
Com certeza, a EAD foi o caminho, talvez “mais fácil”, “menos trabalhoso”, com um processo vestibular totalmente maleável para assim realizar o sonho daqueles que sempre desejaram ingressar no ensino universitário, mas que por vários motivos foram impedidos.
Agora vocês estão formados, e o Estado frio e mentiroso, decretou a falência do ensino público, criando o sistema de cotas, provando a sua total incapacidade de gerir o sistema educacional. Agora que já passou a fase defensiva eu conclamo à luta. Vocês, meus caros, que souberam separar o joio do trigo, que desempenharam suas atividades com proficiência, são os portadores da luz que eliminará as trevas da ignorância e da incompetência que gravemente assola nossa Nação.
Está na mão de vocês agora, não apenas um canudo simbólico de uma graduação alcançada, mas a responsabilidade de fazer uma educação diferente dessa que eu acabei de descrever;
É responsabilidade de vocês, fazer o aluno ver além daquilo que lhe é mostrado, fazê-lo interpretar o mundo e não digeri-lo "com o cérebro desligado" conforme as coisas são passadas diariamente pelos veículos de comunicação em massa, servos do Monstro-Estado, que sempre procura nos imbecilizar.
Está entregue a vocês, a responsabilidade transformar a escola pública, onde o filho do professor que ali trabalha, ali estude, pois, na maioria dos casos, esse professor põe seu filho na rede particular, porque o mesmo não acredita na eficácia da educação regida pelo Estado.
É de vossa competência, que são sistematicamente a classe mais intelectualizada, quando empreenderem suas manifestações, além de cobrarem seus direitos, suas melhorias, cobrar também melhores recursos didáticos; paradidáticos; merenda de qualidade; respeito ao aluno; educação inclusiva, onde os pais, a família e a vizinhança estejam inteirados com a classe.
E vocês não têm só o poder sindical, têm um outro que é muito mais forte, o único que o Estado teme. Falo do poder da intelectualidade, mais forte do que becas, placas, anéis e diplomas, algo que ninguém pode lhes tomar, nem mesmo o Monstro.
Que o Grande Arquiteto do Universo ilumine a todos.
Muito obrigado e boa sorte.