Editorial [ História e Cidadania ]
Quarta-Feira, 17 de Agosto de 2011, 17h04
PARECER SOBRE A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA EM CARIRA/SE
EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

Esta coluna é dedicada à História e Cidadania. O meu último artigo, que reabriu a coluna foi sobre o ensino de história. Ainda gostaria de tocar nesse assunto. Agora não sobre o ensino fundamental ou médio, mas sobre o ensino superior de História, em especial na categoria Educação à Distância.

Já atuei como Professor Substituto de História do Brasil numa universidade pública (2007-2008) e como professor-tutor de Licenciatura Plena em História, do pólo de uma universidade particular em Carira/SE (2007-2009). Diante da minha experiência na docência universitária procederei a uma avaliação particular sobre o funcionamento dessa modalidade educativa, tendo por base, a minha própria experiência.

Comentarei sobre as características do curso sob o viés da minha tutoria, sua comparação com a modalidade presencial e o perfil do alunado, evocando como este vivencia a EAD, bem como seu comportamento.

A curso ora mencionado funcionava da seguinte forma: encontros presenciais nas manhãs de sábado, plantões tutoriais na tarde do mesmo dia, plantão tutorial quinzenalmente, disponibilidade em horário pré-estabelecido de contato telefônico com os especialistas das disciplinas estudadas; material didático em módulos (apostilas) e material de estudo para notas complementares (livros, fotocópia de artigos e capítulos de livros etc); realização de duas avaliações em provas de múltipla escolha por disciplina, em cada período.

Já o curso presencial é desenvolvido no decorrer da semana, geralmente com aulas de segunda a sexta, sem plantões ou acompanhamento, a não ser no caso de orientação para trabalho de conclusão de curso. Os textos acadêmicos são sem dúvida mais densos, complexos e numerosos do que as pífias apostilas de EAD. A quantidade e o estilo das avaliações são de acordo com a metodologia desenvolvida pelo professor da disciplina.

O perfil dos discentes de EAD em Carira com os quais mantive 3 anos de contato, constituia-se na maioria dos casos, de pessoas que estavam há anos, ou mesmo há décadas afastadas da sala de aula de ensino tradicional e que demoraram a se enquadrar ou não se adaptaram à educação à distância. Alguns sempre desejaram estar num curso universitário, mas vários motivos as impediram, como falta de transporte para as instituições de ensino superior, falta de tempo para as aulas presenciais, infelicidade de nunca ter conseguido aprovação na concorrida UFS, falta de recurso financeiro para arcar com as despesas de uma universidade ou faculdade particular.

Desses, muitos migraram para a EAD, talvez por considerar “mais fácil”,“menos trabalhosa”. Não há de se negar, que o ingresso desse público foi facilitado por um processo vestibular não tão complexo quanto os do curso presencial.

Diante do perfil abordado e da facilidade de entrada num curso de EAD, notei que, apesar de existirem alunos que levavam a sério o curso, grande parcela estava apenas interessada no diploma com o menor esforço possível, visualizando-o como garantia de vantagem financeira no meio profissional em que já estava inserido.

Considerando que existiam alunos compromissados, comentarei sobre o que considero as “mazelas” da EAD.

Quase ninguém comparecia aos plantões sabatinos ou quinzenais por mera negligência, alegando desnecessidade, ou ainda, pasmem, que não sabiam da existência desses plantões!

Muitos resolviam ser estudantes no momento da prova! Queriam tirar dúvidas, consultar material, criticar a complexidade da avaliação... As tentativas de “cola” e o barulho eram muitas vezes dignos de ensino fundamental de quinta categoria, beirando o surreal.

Haviam aqueles que se faziam de desentendidos ou que negligenciavam as obrigações.

Reclamações eram feitas por motivos banais (quase nunca por motivos pedagógicos ou metodológicos) que qualquer pessoa de bom senso sabia que não era da alçada da instituição e sim da edificação pública, como deficiência dos banheiros e falta de água.

Quase ninguém ligava para os professores especialistas, por que alegavam que não sabiam (brincavam de desentendidos), que não tinham tempo, mas que ligavam quando era para reclamar de qualquer coisa. Por incrível que pareça, esse tipo de aluno medíocre, conhece toda a hierarquia da Instituição, para poder reclamar, mas não sabiam os nomes dos especialistas das disciplinas que cursavam.

Juntando todos os módulos de um período de EAD, obtinha-se o equivalente a quase metade do material estudado para uma avaliação de apenas uma disciplina do curso presencial. Mesmo assim, era alegado que era muita coisa para ler, mesmo sendo algo equivalente a duas páginas ilustradas por disciplina, para um encontro presencial. Vale ressaltar que mais de 50% desses alunos são professores em sala de aula.

Por estarmos num ambiente onde funciona uma escola de ensino fundamental, os alunos se comportam como alunos do fundamental, conversando, brincando, entrando e saindo o tempo todo, chegando atrasado, brigando sem razão por faltas e notas, o que levava o tutor a deixar de tratá-los como universitários e sim como colegiais.

A nossa metodologia, de acordo com o que preceituava a Instituição, consistia principalmente em o aluno ler em seus horários apropriados e debater no encontro presencial do sábado. Portanto, esse sempre foi o critério mais negligenciado. Na melhor das hipóteses, 5% dos alunos liam. E desses, só Deus sabe quantos entenderam o texto. E dos que não entendiam, se ao menos 2% procurassem o dicionário, seria muito. No dia do encontro presencial quase ninguém debatia. O tutor, se não tivesse cuidado, se transformaria em professor de presencial (que é o que muitos queriam). Esgotei meu estoque de recursos metodológicos para tentar a interação dos alunos, mas havia boicotes de todas as formas.

Acredito que a educação à distância deveria ser levada mais a sério pelos alunos e aos tutores, cabe a difícil tarefa de fazê-la acontecer.


Fonte: Redação do Sistema VIP.

Escrita por João Hélio

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