Editorial [ História e Cidadania ]
Segunda-Feira, 28 de Novembro de 2011, 21h13
DENÚNCIA: MENOSPREZO COM A HISTÓRIA DE CARIRA
Busto Da Índia Mãe Carira, Na Praça Martinho De Souza. Foto Extraída Do Blog Carira Em Fotos

O texto a seguir foi apresentado no programa de rádio “Minha Terra é Sergipe” de Júlio César, na Rádio Educadora AM, em 27/11/2011:

Bom dia Júlio César, bom dia ouvintes da Rádio Educadora AM.

Inicio meus comentários falando sobre a injustiça com o fundador de Carira, o vaqueiro João Martins de Souza.

Deve-se a esse vaqueiro o início do povoamento de Carira, com a construção da primeira casa em 1865 e não existe nenhuma homenagem a ele.Talvez Carira seja uma das poucas cidades brasileiras a cometer esse tipo de ingratidão.

Foi esse mesmo vaqueiro que acudiu a índia Mãe Carira, depois de cair ao lado de sua casa mortalmente ferida por ataque de cães. A mesma faleceu poucos dias depois e foi sepultada pelo próprio João Martins, onde hoje é o canto noroeste da Praça Martinho de Souza, perto de onde hoje está a estátua. Sobre sua cova, ele fincou uma cruz de madeira. Depois, construiu uma capelinha e acruz do túmulo da indígena passou a ser a padroeira da povoação.

Com o tempo a capelinha foi ampliada, transformada em Igreja, até que foi demolida quando da inauguração da atual Igreja Matriz na Praça Tobias Barreto.

Então, diante desses acontecimentos: edificação da primeira casa e conseqüentemente início do povoado; socorro à cacique ferida; e origem da devoção à Santa Cruz, chamo a atenção para o fato de que em nosso município não existe nenhuma homenagem ao fundador.

Por ignorância, alguns acreditam que o nome da Praça Martinho de Souza é uma homenagem a ele. Porém, o vaqueiro João Martins de Souza e o fazendeiro Martinho de Souza Freire são pessoas diferentes e com trajetórias de vida bem distintas. Para constar, é só observar dentro da capelinha velha do Cemitério da Santa Cruz e ver a lápide do túmulo de Martinho de Souza e constatar que ele nasceu em 1865, justamente no ano em que Carira é fundada. De certo, ele não é o fundador.

Enquanto outras cidades os tentam com orgulho bustos, estátuas ou memoriais em homenagem ao seu fundador ou ao menos uma rua, avenida, praça ou escola com seu nome, nossa ingrata Carira não lhe prestou nenhuma homenagem, tão pouco se observa interesse, ou pior, ele é ignorado.

O segundo assunto que eu vou tratar é sobre a falsa crença de que o povoado Gameleiro é mais velho que Carira e que Carira nasceu ou começou no Gameleiro.

O Poder Executivo Municipal, sem mostrar em que está embasado, acabou legitimando essa incoerência, através de um jornalzinho intitulado “Boletim informativo do Município de Carira – Carira in foco nº 1” lançado em 2009. Na página 11 está publicada a matéria sobre a escola do Gameleiro. Logo abaixo, à esquerda de uma foto de uma carteira quebrada está a legenda: “a escola do povoado que deu origem à cidade de Carira foi entregue em condições subumanas” e iniciando a matéria, repete: “Num estado de calamidade pública a escola do povoado que deu origem à cidade de Carira foi entregue em condições subumanas”.

A mim não interessa esse tipo de comentário de quem fez ou deixou de fazer alguma coisa .O que é bizarro são as afirmações históricas ali implícitas e impostas sem fundamento. É importante que afirmações desse tipo, estejam fundamentadas em alguma fonte. Só que até agora não encontrei fundamentação para essa afirmaçãolegitimada pelo Poder Público de Carira.

Ao contrário, lendo os livros “Retalhos de História” e “Memórias”, de Olímpio Rabêlo de Morais e a “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”, volume “Sergipe”, compilada pelo IBGE, encontramos claramente as informações de que afundação da primeira casa em Carira foi em 1865, enquanto a construção daprimeira casa do Gameleiro aconteceu quinze anos após, em 1880, quando oAlferes Manuel Hipólito Rabelo de Morais adquiriu terras nas quais fundou o povoadoGameleiro.

Queroreforçar que essa informação nos chega através do memorialista Olímpio Rabêlo, sobrinhoem segundo grau do próprio alferes. Então, fica a critério do nosso bom sensoem quem acreditar: na afirmação sem embasamento da administração municipal, ou numdos maiores intelectuais carirenses, sobrinho do próprio fundador do Gameleiro.

Talvez ailusão de que “Carira teve origem no Gameleiro” seja porque Manuel Hipólito, moradordaquele lugar, chegou a ser intendente (cargo equivalente hoje ao de Prefeito) davila de São Paulo (que é o atual município de Frei Paulo). E Carira pertencia aFrei Paulo. Como político, Manuel Hipólito tinha opositores em Carira, o que gerourivalidade entre famílias, chegando a conflitos armados como houve entrepartidários do alferes e a família de Martinho de Souza e de Santo Inácio,conforme relatos deixados em dois livretos de autoria de Antônio Conrado deSouza: “Estória Pitoresca, memoráveis recordações da antiga região carirense” e “Momentos de Minha Vida”. É bemprovável que a condição de prestígio político do Gameleiro e do Alferes (inclusiveamigo do Presidente do Estado, Padre Olímpio Campos) tenha causado a falsaimpressão de que aquele povoado é mais velho que Carira e que Carira nasceu lá.

Observemque tudo que comento aqui tem fundamento em fontes primárias ou secundárias.Por exemplo, eu mesmo li no Arquivo Público Estadual de Sergipe, documentosassinados pelo Alferes Manuel Hipólito, como intendente da Vila de São Paulo.

Quanto à nossa emancipação, sexta-feirapassada 25 de novembro de 2011, Carira completou 58 anos de emancipada. Essadata memorável nos faz lembrar a luta de Olímpio Rabelo de Morais para que issoacontecesse.

Porém não podemos esquecer-nos dos que antesdele tiveram sua importância na luta pela nossa autonomia como AgostinhoCustódio, João Amâncio Peixoto e Isauro Soares entre outros (esses dois últimosforram lembrados com nome de rua, pelo menos até que decidam mudar o nomedessas ruas).

Em 1929 eles decidiram solicitar a criaçãodo Município de Carira ao Presidente do Estado de Sergipe, Coronel ManuelDantas (também lembrando num nome de rua em Carira). Mas como o caminho entre opovo e o chefe maior do Estado é cortado por outros políticos e seus jogos deinteresse politiqueiro, nossas lideranças populares foram desencorajadas daidéia de emancipação por seus padrinhos políticos, e na ocasião foi criado o Distritode Paz de Carira, através da Lei n.º 1.049, de 27 de setembro de 1929. Enquantoisso, Nossa Senhora da Glória e Salgado, em igualdade de condições com Carira,foram emancipados. Na melhor das hipóteses, foi dado o nosso primeiro passo.

Tratando-seefetivamente da emancipação, vamos às eleições de 3 de outubro de 1950, em queLeandro Maciel saiu vitorioso para governador e pelo mesmo partido, UDN, nossoprimeiro e único Deputado Estadual, Olímpio Rabelo de Morais. Mesmo sendopovoado, Carira adquiriu pela primeira e única vez, destaque político nocenário estadual. Olímpio então retomou as idéias de emancipação de 1929.

Nodia 14 de abril de 1953, foi promulgada a Reforma Constitucional de Sergipe, retafinal para a reforma da Lei Orgânica dos Municípios, pela qual iriam se criarem Sergipe, sob a influência de Carira e de seu deputado Olímpio Rabelo, maisdezenove municípios.

Então,em 25 de novembro de 1953, alcançamos a emancipação, pela Lei Estadual n.º 525-A.Não só Carira, mas também Barra dos Coqueiros, Pacatiba (Pacatuba), Umbaúba,Poço Verde, Tomar do Geru, Itabi, Malhador, Pedrinhas, Poço Redondo, Curituba(Canindé do São Francisco), Macambira, Pinhão, Monte Alegre de Sergipe,Tamanduá (Graccho Cardoso), Camboatá (Santa Rosa de Lima), Cumbe, Amparo de SãoFrancisco e Malhada dos Bois.

Em3 de outubro de 1954, tivemos nossa primeira eleição e em 6 de fevereiro de1955 a instalação do município com a posse do primeiro prefeito eleito OlímpioRabelo de Morais, e dos membros da Câmara de Vereadores: Nelson Dantas deAlmeida (presidente), João Pedro Alves (João Gonçalo), Aduilson Simões deAlmeida, Lameu Martins de Almeida e Gerino Paes da Costa.

Por fim, gostaria de ressaltar que pormais que seja inegável a importância para uma comunidade a sua emancipaçãopolítica, todos os seres humanos são agentes históricos, não cabendo elevarninguém à categoria de herói, por mais que seja merecido o reconhecimento públicode alguns, como João Peixoto, Olímpio Rabêlo, ou o esquecido vaqueiro JoãoMartins de Souza.

A história de uma cidade não é apenassua história política. Esta é apenas um simples detalhe, diante da magnitude dacultura de um povo, por mais menosprezada que seja, como a nossa, a qual vemosa cada momento sendo enterrada. Seja na destruição do nosso patrimônioarquitetônico, como o casario histórico do bairro Rua-de-Baixo, ou prédiospúblicos como o Matadouro Velho, o antigo Mercado da Farinha e a PrefeituraMunicipal.

Assistimos nossos costumes sendodegenerados; a religiosidade popular se perdendo ou se acabando junto com seusidealizadores, a exemplo da devoção à Santa Cruz da Saúde; dos penitentes, quediminuem a cada quaresma. Nós temos a feira mais conhecida do Estado deSergipe, que sobrevive à voragem destruidora do progresso e à falta deincentivo cultural.

Os nossos folguedos, como o famosíssimo SãoGonçalo e o Reisado, desapareceram por completo, pelo descaso e pelo desleixe.Às vezes tentam resgatar, mas nunca de forma eficaz, sem agregar valores, numatotal ignorância sobre o que é cultura.

Sobrevivem as bandas de pífanos, ninguémsabe até quando, mas estas sobrevivem pelo caráter religioso que elas mantêm,nos pagamentos de promessa.

Por fim, Júlio César, gostaria deagradecer à você, à Rádio Educadora AM e aos ouvintes pela paciência em ouvir opouco que conheço de nossa história, pois eu tenho certeza que, diferentementedas instituições governantes, os nossos conterrâneos, principalmente estudantese professores, conhecem e valorizam meu trabalho.

Mais uma vez obrigado e um bom dia atodos.


Fonte: Livros "Memórias", "Retalhos de História", "Carira", "Estória Pitoresca", "Momentos da Minha Vida", "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros"

Escrita por João Hélio

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